"Escola de Poetas" dizia a placa, e ela ali parada olhando e atrapalhando as pessoas que queriam passar pela calçada. A chuva que caia incessantemente lhe enxarcou por inteiro. Pra ela, não havia chuva, só havia o silêncio que vinha de dentro da escola. Na janela, ela não via alunos, e a porta parecia ter sido trancada de maneira estupidamente violenta para ninguém ousar abri-la. Pensou em tocar o interfone, mas deu uns passos pra trás e seguiu andando.
Esse silêncio parecia o mesmo que havia entre ela e o pai, entre ela e aquele rapaz, entre ela e o porteiro de cara amarrada. O mesmo silêncio que afastava, aproximava. E os pensamentos vieram em turbilhões por sua mente, fazendo ela tropeçar, pisar em falso, atravessar a rua no sinal verde. Ela não via os rostos que passavam ao seu lado, se aquele rapaz passasse por ela, ela seria capaz de não reconhecê-lo. E por seus ouvidos ecoava aquele silêncio, a placa ainda refletia em seus olhos "Escola de Poetas".
A chuva ainda não parou, na rua não há mais ninguém a não ser ela. Impossibilitada de andar por uma angústia que parece não ter fim. A porta fechada era como o "não" que ela havia escutado minutos antes, a porta violentamente fechada refletia como ela se sentia, o medo de tocar a campainha era o medo de falar, era não saber o que falar. E o rapaz em sua mente o tempo inteiro, seu pai em sua mente o tempo inteiro, o silêncio em seu ouvido o tempo inteiro.
Voltou a andar, seu irmão poderia estar preocupado, pois já era tarde demais, tomou de volta sua lucidez porque não tem como ser assim diante de uma pessoa tão prática como ele. O porteiro fitou-a e abriu o portão, ela tropeçou por entre os degraus da escada como se estivesse ainda embriagada pela ausência de som daquele lugar. Entrou no elevador e apertou o número 4, ficou feliz por ter subido sozinha, ela não gostava de subir com desconhecidos, pois eles sempre fazem comentários sem fundamentos. Abriu a porta e se lembrou que não havia como fugir, a angústia ainda lhe acompanhava e agora ela teria que disfarçar até a hora de dormir. Ela insiste em esperar "sim" de quem só sabe falar "não".
