quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Escola de Poetas

"Escola de Poetas" dizia a placa, e ela ali parada olhando e atrapalhando as pessoas que queriam passar pela calçada. A chuva que caia incessantemente lhe enxarcou por inteiro. Pra ela, não havia chuva, só havia o silêncio que vinha de dentro da escola. Na janela, ela não via alunos, e a porta parecia ter sido trancada de maneira estupidamente violenta para ninguém ousar abri-la. Pensou em tocar o interfone, mas deu uns passos pra trás e seguiu andando.
Esse silêncio parecia o mesmo que havia entre ela e o pai, entre ela e aquele rapaz, entre ela e o porteiro de cara amarrada. O mesmo silêncio que afastava, aproximava. E os pensamentos vieram em turbilhões por sua mente, fazendo ela tropeçar, pisar em falso, atravessar a rua no sinal verde. Ela não via os rostos que passavam ao seu lado, se aquele rapaz passasse por ela, ela seria capaz de não reconhecê-lo. E por seus ouvidos ecoava aquele silêncio, a placa ainda refletia em seus olhos "Escola de Poetas".
A chuva ainda não parou, na rua não há mais ninguém a não ser ela. Impossibilitada de andar por uma angústia que parece não ter fim. A porta fechada era como o "não" que ela havia escutado minutos antes, a porta violentamente fechada refletia como ela se sentia, o medo de tocar a campainha era o medo de falar, era não saber o que falar. E o rapaz em sua mente o tempo inteiro, seu pai em sua mente o tempo inteiro, o silêncio em seu ouvido o tempo inteiro.
Voltou a andar, seu irmão poderia estar preocupado, pois já era tarde demais, tomou de volta sua lucidez porque não tem como ser assim diante de uma pessoa tão prática como ele. O porteiro fitou-a e abriu o portão, ela tropeçou por entre os degraus da escada como se estivesse ainda embriagada pela ausência de som daquele lugar. Entrou no elevador e apertou o número 4, ficou feliz por ter subido sozinha, ela não gostava de subir com desconhecidos, pois eles sempre fazem comentários sem fundamentos. Abriu a porta e se lembrou que não havia como fugir, a angústia ainda lhe acompanhava e agora ela teria que disfarçar até a hora de dormir. Ela insiste em esperar "sim" de quem só sabe falar "não".

domingo, 25 de outubro de 2009

Na última folha de caderno

Tracei uma batalha
Para acabar com a batida acelerada do coração,
Com a insônia
E a pouca concentração.
Li um livro e não sei contar a história,
Pois você não me saiu da memória.
Tamanha foi a inquietação,
Que desejo um pouco de solidão.
Há horas, a casa está cheia.
Visita que muito demora: cansa!
E agora, chegou mais alguém.
Eu deveria ir...
Para onde?
Aonde a solidão não me incomode.
Aonde eu não tenha que ser orgulho
Aqui sou empecilho.

Dedicado à Jéssica Cavalcante!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Estrela

Lágrima cai
Sentimento vem e vai
Ensaia falas no espelho
E tira todo o seu batom vermelho
Como se fosse uma meretriz
Uma pobre atriz
Limpando o teatro
Depois do último ato
O rosto estampa o cartaz
Com o sorriso mais fugaz
E o ator que se admira
Ao mesmo tempo enlouquece
Sem dormir na noite que antecede
Quão belo era o falso amor
Quão grande é o talento do ator
O melhor Dom Juan
Aplausos!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O dia de Luíza

Hoje é aniversário de Luíza, e novamente aquela tristeza tomava conta de si. Era tristeza sem que nem porque, era algo dela. Ontem, ela não tinha sentido o cheiro daqueles cabelos que o vento soprava no corredor, nem visto sua imagem refletida naquelas lentes. Ontem, ela queria chegar em casa o mais rápido possível, e a tosse da pessoa que andava atrás poderia incomodá-la como nunca antes. Ontem era só a véspera de um dia como outro qualquer. Mas mesmo assim, ela achava ser um dia diferente.

A cada ano completado diminuía o romantismo, a ilusão. A cada hora, tudo mais escuro, obscuro e distante. A cada minuto, a solidão sobressaia a idéia de que não existe o que todos procuram. Cada passo ia ficando mais lento, cada degrau era pisado com mais cautela. Cada riso mais intenso, e as lágrimas mais escassas. As noites aceleradas, as manhãs mais sonolentas, as tardes mais quentes e mais demoradas. As pessoas apareciam distantes no horizonte, cada uma com seu par, e as mais belas eram expostas em um altar.

O bolo sobre a mesa. O telefone tocando, sua boca doendo, seu coração cortando. O doce do bolo e o amargo de dentro. O humor ácido de alguém próximo, e a água pra matar a sede. A vida começando aqui e terminando ali. O belo disso tudo, o belo da tristeza que também pode ser alegria. Luíza sorria, comia e bebia. Abria os presentes, e agradecia. Ao mesmo tempo desejava que todos fossem embora. O sono a alcançava, o bocejar já ficava incontrolável e ia tomando conta de alguns também.

Acabou o bolo, a vizinha pediu pra levar um pedaço: o último. Acabou a festa e aquele dia. Só não acabou a alegria dos corpos errantes na rua, nem a loucura dos jovens nos becos sem saída. Luíza dormia, sonhava com o rapaz passando no corredor, sentia o cheiro mas não via sua imagem refletindo. Era sonho, e algo dizia que a moça deveria parar de sonhar e se levantar para preparar o café. O sol anunciou o dia pelas frestas da persiana, seu olho já ardia, a fome também. Um mundo lá fora a esperava, e amanhã não era aquele dia, era apenas mais uma dia sem nome.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ana e o Revolucionário

Por onde andam seus olhos que não encontram os meus?
Eu que tanto medo tenho, e que tanto quero te olhar
Aquele olhar que dura uma eternidade
Que deixa tanta saudade
Que é tão bom, e depois tão ruim
Ruim é o fim, o fim do olhar eterno
Tão ambíguo!
E o que faço com esse medo?
Medo que vem da vergonha
E vergonha que se camufla com vontade
Vontade de sentir que gosto tem
E o gosto que tem gera curiosidade
A curiosidade leva à loucura
E a loucura não ajuda ninguém
Ninguém é alguém que já morreu
E a morte gera em mim a vontade de nascer de novo
De sofrer de novo
Mas, principalmente, sentir de novo
O sentimento que o novo causa
Estranho sentimento
Sentimento adorável
Adorável fim
Fim!